Senado descobre que tem poderes, mas esqueceu onde guardou o manual
Em discurso inflamado, Eduardo Girão cobra reação contra o Supremo Tribunal Federal e alerta para “ditadura da toga”, enquanto Casa Alta avalia se reage ou pede um tempo para reflexão

Em um pronunciamento que misturou indignação, alerta institucional e um leve tom de “alguém precisa fazer alguma coisa — de preferência outro”, o senador Eduardo Girão afirmou que o Senado anda enfrentando dificuldades para exercer suas próprias funções. O diagnóstico é grave: o problema não seria falta de poder, mas talvez de iniciativa, disposição ou, quem sabe, de lembrar onde esse poder foi colocado pela última vez.
Segundo Girão, o Senado Federal — eleito diretamente pelo povo e teoricamente responsável por fiscalizar e legislar — está encontrando obstáculos para fazer exatamente isso. “O Brasil não era para estar passando por esse caos”, disse, ecoando o sentimento nacional que aparece sempre que alguém descobre que as instituições não estão funcionando como no folheto explicativo.
STF no papel de protagonista (de novo)
O senador direcionou suas críticas ao Supremo Tribunal Federal, que, nos últimos tempos, deixou de ser apenas guardião da Constituição para se tornar também personagem fixo no centro das polêmicas políticas — às vezes como árbitro, às vezes como jogador e, segundo críticos, ocasionalmente como dono do campo.
Girão defendeu que cabe ao Senado investigar e até afastar ministros da Corte em casos de crime de responsabilidade — uma atribuição prevista, mas que, na prática, parece viver em modo “em breve”, sem data de estreia confirmada.
CPI, críticas e clima de “quem pode mais”
O discurso também trouxe à tona o episódio envolvendo Alessandro Vieira, que viu seu relatório na CPI do Crime Organizado ser criticado por ministros do STF — crítica essa que evoluiu para um pedido de investigação feito por Gilmar Mendes à Procuradoria-Geral da República.
O motivo? Um suposto abuso de autoridade após Vieira sugerir o indiciamento de integrantes do próprio sistema que agora o questiona. Um clássico caso de “quem investiga o investigador”, com potencial para render várias temporadas.
Para Girão, o episódio ultrapassa o debate jurídico e entra no território da “insegurança jurídica” — expressão que, no Brasil, costuma significar que ninguém tem muita certeza de quem manda, como manda ou até quando manda.
“Ditadura da toga” ou excesso de metáfora?
Em tom dramático, o senador alertou para o risco de uma “ditadura da toga”, expressão forte que sugere que o equilíbrio entre os Poderes estaria mais inclinado que cadeira de bar em fim de expediente.
A solução proposta? Simples no discurso, complexa na prática: abrir processo de impeachment contra ministros do STF. Algo que existe no papel, mas que, até hoje, segue no campo das ideias ousadas — ou das ameaças recorrentes que raramente saem do PowerPoint político.
Enquanto isso, o Senado continua sua rotina institucional, dividido entre discursos contundentes e ações mais discretas — tão discretas que, às vezes, parecem invisíveis.
No fim, fica a dúvida: o problema é falta de poder ou excesso de cautela? Ou, como diria o cidadão comum, é só mais um capítulo da série “Brasil: instituições em busca de protagonismo”?



