Avenida Paulista vira um “fumódromo” gigante, mas o preço da “brisa” pode custar caro para o país
Entre “piás”, “vovós” e fumaça para todo lado, Marcha da Maconha pede legalização; críticos alertam que liberar o “reco” vai muito além do óleo medicinal e pode virar um problemão de saúde pública

SÃO PAULO – Quem passou pelo Masp na tarde deste domingo (21) achou que tinha entrado em uma realidade paralela — ou que alguém tinha acendido um “pico” do tamanho do museu. A 18ª Marcha da Maconha reuniu uma piazada mimada, idosos e ativistas que decidiram fechar a Avenida Paulista para pedir a liberação da planta. O discurso é sempre o mesmo: que a proibição enche as cadeias e que o preconceito atrapalha quem precisa de remédio.
Olhando de longe, parecia uma grande reunião de família, mas com um aroma, digamos, bem mais “herbal” do que o de um almoço de domingo. O perfil era variado, com direito até a mães empurrando carrinho de bebê em meio à fumaça — o que faz qualquer pessoa com bom senso pensar se o bom e velho reproche não está fazendo falta na criação dessa gente.
Da medicina para a “furdunça”: O perigo de abrir a porteira
Os manifestantes juram de pé junto que o foco é a saúde. Cartazes defendiam o uso terapêutico, que hoje atende cerca de 50 mil pessoas no Brasil, a maioria mulheres de meia-idade tentando curar a dor nas costas e a insônia. Até aí, tudo muito bonito, tesão. O problema é que, atrás do biombo do óleo medicinal, o que a maioria ali quer mesmo é a liberação do uso recreativo. E é aí que o bicho pega.
Especialistas e críticos do movimento alertam: legalizar a maconha no Brasil não vai esvaziar presídio, vai é encher os hospitais. Tratar o assunto como se fosse apenas a liberação de um chazinho para a vovó dormir é de uma ingenuidade que não cabe na cabeça de um adulto. Liberar o comércio de uma substância psicoativa em um país que já capenga na saúde pública e não consegue controlar o contrabando é pedir para arrumar sarna para se coçar.
O buraco é mais embaixo: Enquanto o ativismo “Nutella” da Paulista foca no autocultivo e no direito de “ficar de boa”, a realidade das periferias e o impacto na saúde mental dos jovens — com o aumento real de surtos psicóticos — são varridos para debaixo do tapete.
“Vou postar no Insta, mas com medo das colega”
A contradição do movimento ficou clara no depoimento da professora de educação infantil, Stephanie Oliveira. Ela foi à marcha apoiar o tratamento da mãe, mas confessou que pensou duas vezes antes de jogar as fotos na rede social com medo do bafafá no trabalho.
“Não é um assunto tão aberto e eu não converso muito sobre isso na escola com as minhas colegas. Cheguei a pensar se deveria postar… Mas vou publicar independentemente de julgamentos”, afirmou a professora, mostrando que até quem defende a causa sabe, no fundo, que a aceitação social não é tão simples quanto parece.
Se até quem está lá no meio fica com o coração na mão na hora de postar um story, imagine o cidadão comum, que trabalha o dia todo e não quer ver o filho caindo no conto de que fumar o “verdinho” é um hábito saudável e inofensivo.
Brisa para poucos?
Dados de um anuário da Kaya Mind apontam que o veto social à planta trava as discussões e faz com que apenas a elite consiga importar os medicamentos. Os organizadores usam isso como argumento para a liberação geral. Porém, os críticos rebatem: se o problema é o preço do remédio, que se facilitem as regras para a indústria farmacêutica e para o SUS, sem precisar transformar o país em um coffeeshop a céu aberto.
No fim das contas, a marcha terminou com muita música, discursos inflamados e a Paulista cheia de lixo. Os manifestantes voltaram para casa crentes de que abafaram. Mas, para a maioria da população que assistiu àquela furdunça pela TV, ficou o aviso: legalizar a maconha pode até parecer uma ideia “da hora” para quem está na “brisa”, mas a ressaca social e de saúde pública quem vai pagar é o trabalhador.



